sexta-feira, 22 de julho de 2011

Ficcional sobre um marido que não gosta de futebol

Cicinha e Sebastião casaram-se e foram morar noutro bairro, distância média em relação a onde moravam anteriormente. Não conheciam a vizinhança, mas sabem como é, vizinhança de bairro suburbano adora conhecer pessoas novas. Não demoraram a bater à porta do novo casal:

- Olá, eu vim trazer uma compota de doce de caju, eu mesma fiz - era a dona Zulmira, que sempre trazia doces para os vizinhos novatos, a fim de fazer amizade mais fácil.

Quem recebeu do outro lado foi Cicinha, que não teve outra escolha a não ser deixar a mulher entrar. No terracinho, em cima do centro, estava o laptop. Cicinha, recém formada, estava organizando ali um planos de aula, encaixáveis no cronograma do primeiro colégio onde ensinaria. Seu marido tinha saído, também professor, para uma reunião num outro colégio.

Porém dona Zulmira não era dessas coisas, era dona de casa. Quis logo saber de cozinha, adentrou. Cicinha foi correndo atrás com o computador. 0 assunto começou pela comida, passou pela lavagem de banheiros e finalmente, sobre maridos:

- Menina, qual o time do seu marido? - dona Zulmira perguntou interessada, já imaginando uma possível amizade entre o novato e seu marido rubronegro, doentasso.

- Hm? Time? Sabia que ele não tem tempo para isso?

- Ihh - desdenhou a mais velha - meio estranho, não?

- Já me acostumei, dona Zulmira - Riu-se Cicinha - Minha família é toda alvirrubra, eu até torcia um cadinho, mas cadê mais tempo agora?

Dona Zulmira não podia esconder o olhar desaprovador. Para ela, como podia um homem não gostar de futebol... A menos que ele fosse... Resolveu não falar mais nada com a então moça bobinha, era hora de ir para a casa de dona Mariinha, que junto com dona Nininha, poderiam comentar sobre as descobertas de então.

Porém não deve-se pensar que elas eram tão velhas assim não. Não passavam dos quarenta, na verdade. Cicinha que era mais nova, cerca de vinte e cinco anos, e ainda sem filhos... seria estéril, ou ...

O tempo ali passava, as donas a fofocar, o resto a viver corridamente. No tempo sem descanso, o casal novato era raramente visto, apenas lapsos de tempo. Um instantinho.
Seis meses depois e finalmente férias, o casal pararia em casa. Exatamente junto com o período quente dos campeonatos futebolísticos. O Santinha envergonhava, o Timbu entristecia e o Leão enfurecia a torcida pernambucana, todos rangendo os dentes, juiz filada***, e todo o mundaréu de xingamentos habituais. As donas a reclamar na calçada, os maridos gritando no bar da pracinha. Nisso, o casalzinho chega, de carro.

- Voltou antes do jogo, Cicinha? - Desdenhou dona Nininha, com olhar bastante desaprovador, olhando de cima a baixo o jovem Sebastião, que parecia cansado.

Cicinha apenas sorria, bastante corada e visivelmente feliz. Um tanto tímida também... Tião percebeu o sinal:

- Bem, vou entrando, meio cansado, tenham uma boa tarde!

- Então, qual o assunto? - perguntou Cicinha, finalmente tentando se entrosar.

- Ah minha filha - disse Mariinha - olhe "pralí", um bando de homem besta gritando para a tevê.

Cicinha riu-se gostosamente:

- Eu nem sei como deve ser.

- Mas afinal, onde você estava? - dona Zulmira estava bem curiosa...

- Ah, dona Zulmira - começou Cicinha entre risos - a senhora deve imaginar...

As mentes safadas das donas finalmente pegavam no tranco:

- Cê tava num ...? - perguntaram, em uníssono, sem qualquer coragem de proferir o nome do simples local.

- Sim.

- Ah mas Manél nunca me levou num motel... - Ah nunca mais Manél quis me amar...
- Ah mas Joaquim só quer saber do isporti dele, manda eu sair da frente da tevê ...
- Ah mas Zé não disgruda os zoio da tevê, se arreta comigo, vai pro bar, volta no outro dia chutado...


Moral da história: Tem marido que não quer saber de qualquer time , mas de que time é teu.

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